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Meu cachorro morreu

Lipe, meu cachorro, amigo de doze anos, morreu. Chegou para mim em 2009, como uma das heranças de minha mãe – a outra é a teimosia.

Imagine um cão com problemas de saúde? Imaginou? Pois o Lipe tinha mais. Aos dois anos de vida, o primeiro diagnóstico: epilepsia. Com 10 anos, o segundo: diabetes. Por sorte, ele já tinha parado com os doces naquela época para manter a forma. De lá pra cá, além das duas doses diárias de fenobarbital  – algumas vezes complementadas com o brometo de potássio -, vieram as duas injeções de insulina todos os dias. E não é que o Lipe aguentava tudo bravamente? Pelos meus cálculos, 1.460 picadas no lombo, na nuca, algumas no meu próprio dedo, além das agulhadas na orelha pra tirar aquele pinguinho de sangue pra medir a glicemia.

Com a diabetes, veio a cegueira, primeiro leve, depois mais complicada. Os passeios passaram a ter um ou outro acidente de percurso, uma topada no muro, um tropeção na sarjeta. Mas nada que impedisse o bom e velho Lipe de dar sua volta no quarteirão. Bem, quase nada…

No nosso último passeio, na segunda-feira, o corpo já travava. Não estava disposto a percorrer o mesmo quarteirão de sempre. Hora de voltar. Depois vieram a falta de apetite, a perda rápida de peso, os tremores e a busca por um canto sossegado pra ficar. E foi no seu cantinho preferido, perto da bicicleta, um dia depois, que ele partiu.

Não sou desses que chama cachorro de filho. Pra mim, cachorro é cachorro, embora muita gente pense o contrário. Mas, é claro que são dias tristes. Arrumar as coisas dele para doação, não ter mais os cuidados com hora marcada para oferecer. Tudo isso não deixa de criar um vazio, de trazer saudades.

Hoje, depois que tudo se assentou, fiz a minha despedida. Caminhei pelo mesmo trajeto de todas as manhãs, sem pressa. Ele não sabia, mas para mim, eram as nossas voltas os momentos mais tranquilos dos meus dias. Quem sabe eu não continue dando umas voltinhas no quarteirão de vez em quando, antes de encarar o que os dias têm a me oferecer? Sei que, escondido, o Lipe vai me seguir. (Angelo Davanço)

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Comentário

  1. É de emocionar! Um cachorro é sempre um grande companheiro. A atenção e cuidado é o que eles precisam. Com certeza ele sempre foi muito feliz contigo! Meus sentimentos pelo Lipe. 🙁

  2. São companheiros fantásticos esses animais que nos adotam. Sempre dispostos, não importando o tempo.
    Meus sentimentos pela perda e parabéns pela escrita. Ficou ótima