Post 4 – Desenho

Este desenho aí da foto é das poucas coisas que guardo da minha infância – quer dizer, tem também os jogos de futebol de botão e a manta verde, que guardo até hoje, mas isso conto outra hora. Quando eu era criança eu gostava de desenhar. Vivia desenhando os personagens Disney, era Mickey pra todo lado. Na escola eu usava isso a meu favor para impressionar as garotas desenhando cinderelas, brancas de neve e tudo mais.

Um dia, na Copa de 1982, ajudei um primo a desenhar algo para participar de um concurso da loja Jumbo Eletro. Como o símbolo da loja era um elefante, desenhamos uma torcida de elefantes assistindo a um jogo da seleção brasileira no estádio. Ele ficou com o terceiro lugar, deve ter ganho um faqueiro, um jogo de baixelas, ou algo assim.

Daí que em outro dia, eu simplesmente parei de desenhar. Travei e nunca consegui entender isso direito. Até que neste ano, durante uma das minhas participações na Feira do Livro de Ribeirão Preto (olha outra história que vem aí!), o Arnaldo Júnior, meu companheiro de fanzines e outras ideias malucas, um mestre na arte de usar as histórias em quadrinhos em sala de aula, falou algom mais ou menos assim: “todo mundo nasce sabendo desenhar, mas se não praticar, vai esquecendo, e a sala de aula tem muito a ver com isso, pois se uma professor fala para o aluno, ainda criança, que ele não pode pintar a copa de uma árvore de azul, porque a copa de uma árvore deve ser verde, olha um obstáculo aparecendo aí.” Não me lembro se ocorreu algo do tipo em sala de aula. Recordo que o professor de desenho geométrico até me chamava para ajudá-lo na lousa.

Bom, mas o fato é que eu não desisto tão fácil das coisas, como mostram os desenhos que andei fazendo tempos atrás na série ‘Caminhando e Escutando’, que você pode ver aqui: https://goo.gl/YhvnPa

E como outro dia minhas filhas ficaram admiradas com minha Galinha Pintadinha, minha Pepa Pig, meu Pocoyo, quem sabe não arrisco uns rabiscos até o fim dos 50 Posts?

Post 2 – Copa do Mundo

Já que estamos falando de Copa do Mundo, vamos ver o que é que eu me lembro conforme vou escrevendo. De 1968 para cá, a Rússia é o meu 13º Mundial. A primeira lembrança que vem é do campeonato de 1974, disputado na Alemanha. Não que eu recorde dos jogos ou da festa da torcida. O que eu me lembro mesmo é do álbum de figurinhas. Esqueça as versões modernas, o álbum quando eu tinha seis anos de idade era um bitelo de papel duro, que chegava a dobrar a espessura de tanta cola que se passava pra colar as figurinhas. Você já ouviu falar em cola feita com farinha? Dá um Google aí. Até hoje lembro de um jogador do Zaire que tinha no álbum, o Lobilo Boba.

Álbum da Copa de 1974

Da Argentina em 1978 eu me lembro que, na volta às aulas, escrevi a famosa redação “como foram minhas férias” em que contava como fiquei com o joelho roxo ao dar uma topada contra a parede na comemoração de um gol do Dirceu. Provavelmente foi o gol que o vascaíno marcou contra a Itália na decisão do terceiro lugar e deu o título de “campeão moral” daquele mundial, depois da armação entre Peru e Argentina.

Aí veio 1982. Aos 14 anos essa coisa de Copa do Mundo começava a ficar séria. Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Oscar, Cerezo, Edinho, Dinamite, a maior quantidade de craques por metro quadrado que algum país poderia ter. Mas no meio do caminho havia um Rossi, havia um Paolo Rossi no meio do caminho. O mais legal daquela Copa é que um ano antes, no dia 14 de março de 1981, assisti ao amistoso Brasil 2 x 1 Chile, gols de Reinaldo e Zico, no estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto, que um dia foi o local de trabalho do meu pai, numa história que conto outra hora.

Em 1986 ainda havia a esperança de alguma coisa, mas tudo morreu nos pênaltis contra a França. Aí vieram os anos 1990 com o tal futebol de resultado, e assim, com Parreira e companhia, faturamos o tetra na base do zero a zero. Depois vieram Zidane, os holandeses, os alemães, com o penta do Fenômeno no meio do caminho.

Neste ano, os horários ajudam e tem cada jogão com o imortal Galvão, não perco um! E tem também a história se repetindo. Ao ajudar minha filha de seis anos a colecionar o álbum da Copa, vou escrevendo junto os capítulos das muitas Copas que ela e a irmã mais nova terão pela frente. Vai, Brasil!

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Nivelando por baixo

Houve um tempo em que Ribeirão Preto era um município respeitado por este Brasil afora, quiçá internacionalmente. Claro que ainda estamos acima da média de muitos lugares por aí, e aí é que está o problema: a média tem sido nivelada por baixo. Muito por baixo.

Vamos a alguns exemplos? Ribeirão já foi reconhecida por sua excelência em saúde. Ainda temos destacados centros acadêmicos e médicos de comprovada experiência. Mas, e o atendimento público da saúde? Postos fechados, ausência de médicos, agendamentos demorados e falta de medicamentos são apenas alguns dos problemas crônicos da área.

E a tal Capital da Cultura que já fomos um dia – ainda que eu nunca tenha concordado com tal honraria -, o que é que foi feito dela? Espaços sucateados, projetos interrompidos e inexistência de programas de formação cultural não são exatamente o espetáculo que gostaríamos de assistir.

Na Educação não são apenas os alunos que faltam vez ou outra às aulas. Falta uniforme, falta material, falta professor, falta merenda, falta porta no banheiro…

E a (in)segurança pública? Ruas escuras, mato alto, praças abandonadas, falta de oportunidades de emprego, de educação, de cultura, de vida, que empurram para as ruas uma leva de desocupados. E dá-lhe roubo, agressão, facada, medo.

De dentro de nossos condomínios e veículos bem refrigerados assistimos pela janela, passivamente, à destruição de tudo o que foi construído até aqui.

Têm culpa os homens que ocupam agora o poder? Claro que sim. Mas, e nós, você e eu? Vamos  continuar a canalizar nossa indignação apenas para as redes sociais da vida, nesta desconexão com o mundo real que nos cerca? Continuaremos, também, nos nivelando por baixo? (Angelo Davanço)

O calvário de Paes

Dezoito minutos do segundo tempo, bola recuada para a área do São Caetano, confiante, o goleiro Paes domina, dá um passo para trás e, ao tentar o chutão para a frente, dá de cara com um atacante do São Paulo, que aproveita a falha e abre o caminho para os 2 x 0 que desclassificariam o time do ABC no Campeonato Paulista.

Foi só o árbitro encerrar o jogo para Paes desabar no gramado. O que se viu depois foi uma espécie de calvário transmitido ao vivo para todo o país via TV, rádio e internet.

Com os olhos marejados, o goleiro tentava explicar seu erro e, em todas as respostas, procurava refletir no que iria falar em casa, para a mulher e os filhos. Paes foi para casa, com certeza recebeu o apoio da família e, no dia seguinte, sem ter conseguido dormir direito, lá estava ele, novamente ao vivo nos programas esportivos, de novo com os olhos marejados, tentando explicar o que aconteceu.

Em uma de suas entrevistas, o que chamou a atenção foi sua decisão de excluir contas em redes sociais depois de receber inúmeras mensagens ameaçadoras de torcedores furiosos. “Eu sei me defender, eu não temo por mim, mas temo pela minha mulher e meus filhos, que saem às ruas, têm uma vida normal”, disse o goleiro de 35 anos.

Como diz o bordão futebolístico, “pode isso, Arnaldo?”. Quer dizer que um cidadão, no exercício de sua profissão, comete uma falha como tantas outras que ocorrem diariamente, em milhares de profissões, e precisa ser exposto como uma espécie de aberração em um mundo tido como perfeito por trás das redes sociais? Pior de tudo, tem que se esconder para a segurança de sua família?

Lembrem-se que inúmeros políticos são flagrados “falhando” regularmente no desempenho de suas funções. Nenhum dá a cara para bater ao vivo na TV, nenhum, aparentemente, se preocupa no que vai explicar em casa, mas justo o Paes, o goleiro do São Caetano, tem que passar por um calvário desses? (Angelo Davanço)

Meu cachorro morreu

Lipe, meu cachorro, amigo de doze anos, morreu. Chegou para mim em 2009, como uma das heranças de minha mãe – a outra é a teimosia.

Imagine um cão com problemas de saúde? Imaginou? Pois o Lipe tinha mais. Aos dois anos de vida, o primeiro diagnóstico: epilepsia. Com 10 anos, o segundo: diabetes. Por sorte, ele já tinha parado com os doces naquela época para manter a forma. De lá pra cá, além das duas doses diárias de fenobarbital  – algumas vezes complementadas com o brometo de potássio -, vieram as duas injeções de insulina todos os dias. E não é que o Lipe aguentava tudo bravamente? Pelos meus cálculos, 1.460 picadas no lombo, na nuca, algumas no meu próprio dedo, além das agulhadas na orelha pra tirar aquele pinguinho de sangue pra medir a glicemia.

Com a diabetes, veio a cegueira, primeiro leve, depois mais complicada. Os passeios passaram a ter um ou outro acidente de percurso, uma topada no muro, um tropeção na sarjeta. Mas nada que impedisse o bom e velho Lipe de dar sua volta no quarteirão. Bem, quase nada…

No nosso último passeio, na segunda-feira, o corpo já travava. Não estava disposto a percorrer o mesmo quarteirão de sempre. Hora de voltar. Depois vieram a falta de apetite, a perda rápida de peso, os tremores e a busca por um canto sossegado pra ficar. E foi no seu cantinho preferido, perto da bicicleta, um dia depois, que ele partiu.

Não sou desses que chama cachorro de filho. Pra mim, cachorro é cachorro, embora muita gente pense o contrário. Mas, é claro que são dias tristes. Arrumar as coisas dele para doação, não ter mais os cuidados com hora marcada para oferecer. Tudo isso não deixa de criar um vazio, de trazer saudades.

Hoje, depois que tudo se assentou, fiz a minha despedida. Caminhei pelo mesmo trajeto de todas as manhãs, sem pressa. Ele não sabia, mas para mim, eram as nossas voltas os momentos mais tranquilos dos meus dias. Quem sabe eu não continue dando umas voltinhas no quarteirão de vez em quando, antes de encarar o que os dias têm a me oferecer? Sei que, escondido, o Lipe vai me seguir. (Angelo Davanço)