Todo pintor é maluco?

Que me perdoem os amigos pintores, mas a pergunta está em um diálogo na tela do cinema. “Só os bons”, responde Vincent Van Gogh ao colega de sanatório, um ex-combatente de guerra.

Contrariando as indicações para ‘Vice’ ou o novo de Spike Lee, fui à primeira sessão de ‘No Portal da Eternidade’, com um Willem Dafoe perfeito no corpo e na alma do gênio holandês. Na verdade, mais do que assistir a um filme, eu queria mesmo era uma deixa para voltar a escrever sobre cinema, coisa que não faço há uns seis, sete anos.

Antes da sala escurecer de vez fiquei matutando o que motivou minha escolha. Lembrei de dona Dalva, minha mãe, e de sua coleção “Gênios da Pintura”. Foi naquelas revistas que tive meu primeiro contato com o que chamamos de arte. Também havia o programa do Daniel Azulay na TV, mas aí já é outra história.

Me lembrei também daquelas que talvez sejam minhas primeiras sessões de cinema: “Tubarão” e “King Kong”, lá pela metade dos anos 70. Eu pensava que o termo ‘arrasa-quarteirão’ se devia ao fato das filas para estes dois filmes, em cartaz no Cine Plaza, dobrarem a esquina do exuberante casarão do doutor Camilo de Mattos.

Toda vez que passo naquela esquina da Duque com a Tibiriçá, dou um leve toque na muretinha do abandonado casarão. Um leve toque de saudade das minhas primeiras sessões de cinema com a dona Dalva.

Corte rápido de cena, surge uma simpatia de senhora que, acompanhada da filha e de outra garota, saúda os outros sete espectadores daquela sessão de quinta-feira com um afável cumprimento de boa tarde. E como não se toca mais música antes do filme começar, a mulher puxou conversa e encasquetou que me conhecia.

– Eu estudei com você no colégio Industrial, não é mesmo?

– Acho que não, pois eu não estudei no Industrial, estudei no Mousinho…

– Você morou nos Campos Elíseos?

– Sim, morei na infância e adolescência, no final da Tamandaré…

– Então é isso, eu te via lá perto do Industrial. Você é professor?

– Não, eu sou jornalista…

– Então é isso! Você aparece na televisão?

– Não, eu sempre trabalhei em jornal impresso…

– Ah, no A Cidade, né? Você ia comer no San Sebastian?

– Sim, quando a fome apertava, era uma opção lá pelos lados da São Sebastião…

– Viu, eu te conheço! Meu nome é Dalva…

– O meu é Angelo… Ah, minha mãe também se chamava Dalva…

– Só Dalva? Eu sou Dalva Cristina…

– Dalva Inês…

– Bonito também… Já vai começar, bom filme.

– Bom filme para a senhora também.

E não é que o filme é bom mesmo? O diretor Julian Schnabel mostra um Van Gogh ciente da condição de transtornado com as visões que tinha e com as vozes que ouvia e, mais do que isso, sabedor de que sua arte não era feita para a sua geração, mas para os tempos futuros.

Não são poucas as cenas em que alguém aparece para lhe perguntar se ele realmente se achava um pintor.

– Você fica pintando estas flores, mas sabe que elas vão murchar e morrer…

– Não as minhas. As minhas flores serão eternas.

Preste atenção quando a câmera simula o olhar de Van Gogh. As imagens vão ficando cada vez mais amareladas e ainda mais afetadas pelas lágrimas das retinas do pintor.

Sim, Vincent Van Gogh era um pintor. Um pintor dos bons. E por isso mesmo, maluco.

E este texto, que era para ser uma crítica de cinema, virou uma crônica. Quem sabe nos próximos filmes eu acerto?