O calvário de Paes

Dezoito minutos do segundo tempo, bola recuada para a área do São Caetano, confiante, o goleiro Paes domina, dá um passo para trás e, ao tentar o chutão para a frente, dá de cara com um atacante do São Paulo, que aproveita a falha e abre o caminho para os 2 x 0 que desclassificariam o time do ABC no Campeonato Paulista.

Foi só o árbitro encerrar o jogo para Paes desabar no gramado. O que se viu depois foi uma espécie de calvário transmitido ao vivo para todo o país via TV, rádio e internet.

Com os olhos marejados, o goleiro tentava explicar seu erro e, em todas as respostas, procurava refletir no que iria falar em casa, para a mulher e os filhos. Paes foi para casa, com certeza recebeu o apoio da família e, no dia seguinte, sem ter conseguido dormir direito, lá estava ele, novamente ao vivo nos programas esportivos, de novo com os olhos marejados, tentando explicar o que aconteceu.

Em uma de suas entrevistas, o que chamou a atenção foi sua decisão de excluir contas em redes sociais depois de receber inúmeras mensagens ameaçadoras de torcedores furiosos. “Eu sei me defender, eu não temo por mim, mas temo pela minha mulher e meus filhos, que saem às ruas, têm uma vida normal”, disse o goleiro de 35 anos.

Como diz o bordão futebolístico, “pode isso, Arnaldo?”. Quer dizer que um cidadão, no exercício de sua profissão, comete uma falha como tantas outras que ocorrem diariamente, em milhares de profissões, e precisa ser exposto como uma espécie de aberração em um mundo tido como perfeito por trás das redes sociais? Pior de tudo, tem que se esconder para a segurança de sua família?

Lembrem-se que inúmeros políticos são flagrados “falhando” regularmente no desempenho de suas funções. Nenhum dá a cara para bater ao vivo na TV, nenhum, aparentemente, se preocupa no que vai explicar em casa, mas justo o Paes, o goleiro do São Caetano, tem que passar por um calvário desses? (Angelo Davanço)